Merval Pereira
O GLOBO
Há um descompasso evidente entre o que acontece nas ruas do Egito e a reação dos governos ocidentais. Tanto quanto os Estados Unidos, os governos europeus estão muito cautelosos no tratamento diplomático da crise política que já derrubou o ditador da Tunísia e está colocando num aparente beco sem saída o ditador egípcio Hosni Mubarak, que piscou ao anunciar que não se candidatará a mais uma reeleição.
Não houve uma manifestação oficial da União Europeia, e os países tratam da questão com a prudência de quem ainda não sabe para que lado o vento está soprando.
Os governos da França, da Inglaterra e da Alemanha soltaram uma nota conjunta muito cautelosa, ainda procurando um papel para a ditadura de Hosni Mubarak.
Os europeus destacam o papel "conciliador" sempre exercido pelo governo do Egito na região para desejar que também agora na crise Mubarak se porte como um conciliador.
O presidente francês Nicolas Sarkozy esteve na reunião da União Africana em Adis Abeba, mas não se aprofundou na questão egípcia.
Disse apenas platitudes sobre a violência como uma maneira errada de buscar a solução de problemas.
Sem as amarras políticas que impedem uma explicitação de posição, nos debates no recente Fórum Econômico Mundial, houve um consenso de que o Egito seguirá o modelo da Tunísia, embora as situações sejam bastante diferentes.
A situação de desemprego maciço, um alto nível de pobreza e uma juventude em ebulição formam um quadro no Egito muito favorável a uma verdadeira revolução que não terá Mubarak à frente.
A juventude egípcia acredita na democracia nos termos ocidentais, e por isso é improvável um novo ditador ou um golpe militar, pois eles já viram esse modelo falir através do mundo árabe.
Os primeiros movimentos de Mubarak para amenizar a situação, indicando o vice-presidente e alterando seu Ministério não foram suficientes, assim como de nada valeu sua promessa de antecipar as eleições e não se candidatar.
Os egípcios querem uma mudança completa, querem ser tratados como cidadãos e ser ouvidos.
Dois ministros tunisianos, Yassine Brahim, ministro da Infraestrutura e Transportes, e Mustapha Kamel Nabli, presidente do Banco Central, fizeram parte do debate em Davos, que foi intermediado por Raghida Dergham, correspondente diplomático e colunista do "Al Hayat", dos Estados Unidos, e teve ainda a participação de Khalid Abdulla-Janahi, dos Emirados Árabes Unidos, Moncef Cheikh-Rouhou, professor de Finanças Internacionais da Escola de Administração da França, e Nkosana D. Moyo, vice-presidente e chefe de operações do Banco de Desenvolvimento da África com sede na Tunísia.
A dúvida era se os protestos nas ruas resultariam em uma saída negociada de Mubarak ou se haveria um banho de sangue.
Diante da posição dos militares de não atacar a população, tudo indica que está superada a possibilidade de um enfrentamento sangrento.
A revolta política na Tunísia, o país mais urbano e educado do Magreb, é considerada um ponto de partida para uma mudança no Oriente Médio e no Norte da África.
As sementes de mudança deixadas pela chamada "Revolução de Jasmin" estão já se enraizando e crescendo na região.
A revolução lançada pelas redes de relacionamento como Facebook tinha um campo fértil para se espalhar: uma classe média importante, com taxa de possuidores de casa própria de 80%, sem problemas étnicos ou religiosos, uma tradição de ser um estado robusto e bem organizado.
Houve desde o início na Tunísia, e parece estar acontecendo o mesmo agora no Egito, uma colaboração entre os militares e a população revoltada.
Um exemplo dessa integração foi a denúncia, através de mensagens de texto, diretamente para o site das Forças Armadas, da existência de franco-atiradores em alguns edifícios.
De posse da informação, os militares enviavam helicópteros para prender os atiradores.
Assim como no Egito, é a juventude que esteve à frente do movimento de revolta na Tunísia, utilizando-se das redes sociais e do twitter para se organizar.
No dia seguinte da queda do ditador Ben Ali, um dos novos ministros despachava através do twitter. Nas paredes era possível ler palavras de ordem oriundas dos movimentos estudantis de 1968 em Paris: "Democracia é um bom investimento".
A "Revolução de Jasmim" derrubou um mito que serviu para sustentar ditaduras em todo o mundo árabe, o de que haveria "ou uma ditadura ou o Talibã", ou a " Irmandade Muçulmana" no caso do Egito.
Pelo menos na Tunísia, e tudo caminha para que seja assim também no Egito, a revolução veio respeitando as instituições, e a mudança de regime foi feita dentro das regras da lei.
As instituições governamentais estão intactas e existe a previsão de convocar eleições dentro de seis meses.
Mubarak tentou um acordo com base na convocação de eleições para setembro, e os governos ocidentais que o apoiaram esses anos todos ainda estão na posição de defender uma "transição pacífica", o que significaria que ele controlaria o processo de sua substituição, o que não parece estar de acordo com o pensamento da maioria da população, que quer sua saída imediata do poder.
Mas tudo indica que esteja no fim a ditadura de Hosni Mubarak no Egito, e é previsível que daqui por diante as declarações dos países ocidentais serão cada vez mais distante de uma posição neutra como a atual.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Falta examinar alternativas a Belo Monte
Enquanto a sociedade se influenciar com qualquer "especialista" falando e não exercer o espírito crítico dificilmente atingiremos o desenvolvimento econômico, pois as forças externas tais como o infeliz diretor do Avatar que teve a pachorra de dentro de nossa casa vir dizer que uma hidrelétrica é um aneurisma, a horda de apedeutas aplaude.
Sou pragmático, se quisermos diminuir a desigualdade social, a violência urbana temos que viabilizar o desenvolvimento no interior do país e este só ocorre com energia elétrica sustentável. A matemática é simples, mas muito difícil de ser vislumbrada.
Neste propósito já venho alertando aos amigos (padrão "A crônica da morte anunciada") de que teremos apagões de ordem generalizada apesar das justificativas serem, sempre, culpando o além ou falhas do sistema. Um jornalista como ministro não se pode esperar nada melhor do que um engenheiro qualificado.
Enfim...
Falta examinar alternativas a Belo Monte
O Globo
A usina de Belo Monte, que aproveitará um desnível de quase 90 metros na chamada volta do Rio Xingu, é um projeto mal compreendido. Por se situar na Amazônia, em região com sérios problemas sociais e ocupação econômica geralmente sem preocupação ambiental, a hidrelétrica é alvo de críticas, muitas vezes exorbitantes e infundadas, como as que a classificam como um desastre ecológico.
Conciliar desenvolvimento e preservação do ambiente é um desafio que o setor elétrico tem enfrentado com êxito no Brasil, nas duas últimas décadas. No lugar de imensas áreas inundadas, as usinas vêm sendo construídas a fio d"água, aproveitando praticamente a vazão natural dos rios. Sem reservatórios (a não ser aqueles indispensáveis, decorrentes da construção de barragens), a expansão do setor elétrico passou a ser mais dependente do regime de chuvas, o que, por sua vez, exige uma complementaridade de termelétricas (com energia gerada quase sempre pela queima de combustíveis fósseis e que aumentam a emissão de gases que contribuem para o chamado efeito estufa).
Mas este é o preço a pagar para que se consiga continuar a construir hidrelétricas, aproveitando-se o ainda significativo potencial existente no país.
Cada hidrelétrica construída nessas condições, com o menor impacto possível sobre o meio ambiente, ajuda a limpar a matriz energética brasileira e representa uma contribuição no esforço mundial para se conter o aquecimento global.
Embora tão criticado, o projeto de Belo Monte contempla essa experiência acumulada.Várias modificações foram feitas no projeto original e o resultado é que a usina terá uma das mais baixas taxas de área inundável por quilowatt gerado. Como compensação, o consórcio responsável pelo investimento terá de destinar R$3,3 bilhões para iniciativas sociais e ambientais, um valor que a região jamais sonhou. Cidades próximas contarão com sistemas de saneamento básico e muitas famílias deixarão de viver em lugares insalubres. Melhorias de infraestrutura, reflorestamento e estímulos a atividades econômicas autossustentáveis estão previstos. Ou seja, uma região hoje degradada terá com Belo Monte a oportunidade de se recuperar.
Especificamente no segmento de energia, Belo Monte terá papel fundamental. Será a hidrelétrica de maior potencial do país (mais de 11 mil megawatts) e, em termos médios, adicionará o correspondente a três usinas nucleares do tamanho de Angra 2. No período de maior vazão do Rio Xingu, Belo Monte permitirá que as hidrelétricas do Nordeste (cujo subsistema se interliga ao do Norte) poupem seus reservatórios, propiciando melhor aproveitamento ao longo do ano.
Pergunta-se aos críticos extremados de Belo Monte que alternativa eles propõem. Não aumentar a capacidade de geração de energia hidráulica, uma fonte renovável, no país? Ampliar a fatia das termelétricas, mais caras e também mais poluentes? Sem respostas a essas perguntas, a discussão é simplesmente estéril.
.
Sou pragmático, se quisermos diminuir a desigualdade social, a violência urbana temos que viabilizar o desenvolvimento no interior do país e este só ocorre com energia elétrica sustentável. A matemática é simples, mas muito difícil de ser vislumbrada.
Neste propósito já venho alertando aos amigos (padrão "A crônica da morte anunciada") de que teremos apagões de ordem generalizada apesar das justificativas serem, sempre, culpando o além ou falhas do sistema. Um jornalista como ministro não se pode esperar nada melhor do que um engenheiro qualificado.
Enfim...
Falta examinar alternativas a Belo Monte
O Globo
A usina de Belo Monte, que aproveitará um desnível de quase 90 metros na chamada volta do Rio Xingu, é um projeto mal compreendido. Por se situar na Amazônia, em região com sérios problemas sociais e ocupação econômica geralmente sem preocupação ambiental, a hidrelétrica é alvo de críticas, muitas vezes exorbitantes e infundadas, como as que a classificam como um desastre ecológico.
Conciliar desenvolvimento e preservação do ambiente é um desafio que o setor elétrico tem enfrentado com êxito no Brasil, nas duas últimas décadas. No lugar de imensas áreas inundadas, as usinas vêm sendo construídas a fio d"água, aproveitando praticamente a vazão natural dos rios. Sem reservatórios (a não ser aqueles indispensáveis, decorrentes da construção de barragens), a expansão do setor elétrico passou a ser mais dependente do regime de chuvas, o que, por sua vez, exige uma complementaridade de termelétricas (com energia gerada quase sempre pela queima de combustíveis fósseis e que aumentam a emissão de gases que contribuem para o chamado efeito estufa).
Mas este é o preço a pagar para que se consiga continuar a construir hidrelétricas, aproveitando-se o ainda significativo potencial existente no país.
Cada hidrelétrica construída nessas condições, com o menor impacto possível sobre o meio ambiente, ajuda a limpar a matriz energética brasileira e representa uma contribuição no esforço mundial para se conter o aquecimento global.
Embora tão criticado, o projeto de Belo Monte contempla essa experiência acumulada.Várias modificações foram feitas no projeto original e o resultado é que a usina terá uma das mais baixas taxas de área inundável por quilowatt gerado. Como compensação, o consórcio responsável pelo investimento terá de destinar R$3,3 bilhões para iniciativas sociais e ambientais, um valor que a região jamais sonhou. Cidades próximas contarão com sistemas de saneamento básico e muitas famílias deixarão de viver em lugares insalubres. Melhorias de infraestrutura, reflorestamento e estímulos a atividades econômicas autossustentáveis estão previstos. Ou seja, uma região hoje degradada terá com Belo Monte a oportunidade de se recuperar.
Especificamente no segmento de energia, Belo Monte terá papel fundamental. Será a hidrelétrica de maior potencial do país (mais de 11 mil megawatts) e, em termos médios, adicionará o correspondente a três usinas nucleares do tamanho de Angra 2. No período de maior vazão do Rio Xingu, Belo Monte permitirá que as hidrelétricas do Nordeste (cujo subsistema se interliga ao do Norte) poupem seus reservatórios, propiciando melhor aproveitamento ao longo do ano.
Pergunta-se aos críticos extremados de Belo Monte que alternativa eles propõem. Não aumentar a capacidade de geração de energia hidráulica, uma fonte renovável, no país? Ampliar a fatia das termelétricas, mais caras e também mais poluentes? Sem respostas a essas perguntas, a discussão é simplesmente estéril.
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O rumo incerto do Egito
Para se buscar entender o que ocorre no Egito e no Oriente Médio há que se livrar de alguns paradigmas caros para os ocidentais, ou fazer um "epochée" como querem os psicólogos. A democracia que eles entendem não é a mesma que praticamos pois lá as mulheres continuarão a andar dois metros atrás dos maridos com cabeças baixas e com pouco acesso a cargos ou todos os serviços públicos que não são universalizados não por ação ditatorial mas, sobretudo, por questões de idiossincrasia.
O Al Qaeda nasceu no Egito. A região na mão de muçulmanos fundamentalistas e radicais, também existentes entre a Fraternidade Muçulmana, inspira riscos na estabilidade na região e, sobretudo, no fluxo de petróleo no Golfo Pérsico.
Observe-se que mesmo o democrata ganhador do Nobel da Paz antes mesmo de sentar na cadeira, está reticente acerca de se viabilizar a Fraternidade Muçulmana, que não parece ser tão inclusiva como quer nos fazer parecer por cuidarem dos mais pobres.
A equação no Egito é muito complexa e vale a pena ler tudo o que estiver disponível a respeito.
O rumo incerto do Egito
O Estado de S. Paulo
Ao declarar que a transição no Egito, além de ordeira, pacífica e significativa, "deve começar já", o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, parece ter dado o equivalente a um ultimato ao ditador Hosni Mubarak para desistir da sua anunciada decisão de ficar no poder até as eleições nacionais de setembro, às quais prometeu não concorrer. Obama se pronunciou na terça-feira à noite para relatar o que teria dito ao egípcio numa conversa telefônica de meia hora, pouco antes. O telefonema se seguiu à primeira aparição de Mubarak na TV, em oito dias de crescentes manifestações pela sua destituição, culminando com o ato sem paralelo na história nacional que há de ter reunido cerca de 1 milhão de pessoas no Cairo e outras grandes cidades do país.
Ocorre que, segundo as informações mais confiáveis, foi a própria Casa Branca que sugeriu ao ditador que dissesse aos egípcios, para apaziguá-los, que deixaria em setembro o cargo que ocupa há 30 anos. O mensageiro foi um ex-embaixador americano, Frank Wisner, despachado às pressas ao Cairo. Ora, até as múmias sabiam que o octogenário Mubarak, afligido por diversos problemas de saúde, não participaria de mais uma das farsas mediante às quais se eternizou no governo, com as bênçãos de Washington, e tratava de se fazer substituir pelo primogênito Gamal. Compreende-se que os Estados Unidos não podiam simplesmente aconselhar o aliado a renunciar imediatamente - mas tampouco podiam ignorar o efeito que a "concessão" provocaria junto às multidões que clamam por sua cabeça (em alguns casos, literalmente).
A exortação de Obama indica que o governo da mais poderosa nação do mundo está tão perplexo como qualquer outro diante do redemoinho que, vindo da Tunísia, de onde pôs a correr um ditador havia 23 anos no poder, colheu o Egito e sobressalta os regimes pró-ocidentais, do Iêmen e da Jordânia - por enquanto. Em 2005, a então secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, em visita ao Egito, disse que durante 60 anos o seu país preferiu a estabilidade à democracia no Oriente Médio, e não obteve nem uma coisa nem outra. A rigor, até que obteve a primeira, porém ao custo de uma fermentação antiamericana que produziu a Revolução Islâmica no Irã e o terrorismo da Al-Qaeda. A massa egípcia sabe dos vínculos estreitos entre o regime de Mubarak e os Estados Unidos. Mas até ontem pelo menos não se viam bandeiras americanas ardendo nas praças do Cairo.
De todo modo, uma transição que comece já, com o ditador ainda em palácio, é uma contradição em termos. Mesmo sem ele, entregue o governo ao vice-presidente nomeado dias atrás, Omar Suleiman, chefe dos temíveis serviços de inteligência do país, a mudança dificilmente será ordeira, pacífica e significativa, como quer Obama. Em 30 anos de ditadura, interesses a ela associados coagularam-se dentro e fora do vasto aparelho estatal egípcio, protegidos por um Parlamento servil - produto de eleições fraudadas -, corrupção endêmica e um permanente estado de emergência que impunha a censura e amordaçava o dissenso. Os muitos beneficiários do sistema não assistirão impassíveis ao desmanche de seus privilégios. Ainda ontem, no Cairo e em Alexandria, espocaram as primeiras, agressivas e evidentemente orquestradas manifestações pró-Mubarak.
Ontem também o principal ator político egípcio, o Exército, tornou a entrar em cena. Da primeira vez, foi para avisar que não reprimiria as "legítimas aspirações" do povo. Agora, para dizer ao povo que a sua mensagem foi ouvida e assimilada, e chegou a hora de voltar ao normal. Os militares são o eixo ao redor do qual o Egito se move. Qualquer que venha a ser a democracia reivindicada nesses dias com ousadia inédita no mundo árabe, as instituições serão tuteladas pelas Armas, como acontece desde a Revolução que destronou o rei Farouk em 1952. Não é difícil prever que o país conhecerá um prolongado período de instabilidade - e que só se acentuará caso a banida Fraternidade Muçulmana resolva atrapalhar, com o seu radicalismo, a incerta construção de uma ordem política aberta.
O Al Qaeda nasceu no Egito. A região na mão de muçulmanos fundamentalistas e radicais, também existentes entre a Fraternidade Muçulmana, inspira riscos na estabilidade na região e, sobretudo, no fluxo de petróleo no Golfo Pérsico.
Observe-se que mesmo o democrata ganhador do Nobel da Paz antes mesmo de sentar na cadeira, está reticente acerca de se viabilizar a Fraternidade Muçulmana, que não parece ser tão inclusiva como quer nos fazer parecer por cuidarem dos mais pobres.
A equação no Egito é muito complexa e vale a pena ler tudo o que estiver disponível a respeito.
O rumo incerto do Egito
O Estado de S. Paulo
Ao declarar que a transição no Egito, além de ordeira, pacífica e significativa, "deve começar já", o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, parece ter dado o equivalente a um ultimato ao ditador Hosni Mubarak para desistir da sua anunciada decisão de ficar no poder até as eleições nacionais de setembro, às quais prometeu não concorrer. Obama se pronunciou na terça-feira à noite para relatar o que teria dito ao egípcio numa conversa telefônica de meia hora, pouco antes. O telefonema se seguiu à primeira aparição de Mubarak na TV, em oito dias de crescentes manifestações pela sua destituição, culminando com o ato sem paralelo na história nacional que há de ter reunido cerca de 1 milhão de pessoas no Cairo e outras grandes cidades do país.
Ocorre que, segundo as informações mais confiáveis, foi a própria Casa Branca que sugeriu ao ditador que dissesse aos egípcios, para apaziguá-los, que deixaria em setembro o cargo que ocupa há 30 anos. O mensageiro foi um ex-embaixador americano, Frank Wisner, despachado às pressas ao Cairo. Ora, até as múmias sabiam que o octogenário Mubarak, afligido por diversos problemas de saúde, não participaria de mais uma das farsas mediante às quais se eternizou no governo, com as bênçãos de Washington, e tratava de se fazer substituir pelo primogênito Gamal. Compreende-se que os Estados Unidos não podiam simplesmente aconselhar o aliado a renunciar imediatamente - mas tampouco podiam ignorar o efeito que a "concessão" provocaria junto às multidões que clamam por sua cabeça (em alguns casos, literalmente).
A exortação de Obama indica que o governo da mais poderosa nação do mundo está tão perplexo como qualquer outro diante do redemoinho que, vindo da Tunísia, de onde pôs a correr um ditador havia 23 anos no poder, colheu o Egito e sobressalta os regimes pró-ocidentais, do Iêmen e da Jordânia - por enquanto. Em 2005, a então secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, em visita ao Egito, disse que durante 60 anos o seu país preferiu a estabilidade à democracia no Oriente Médio, e não obteve nem uma coisa nem outra. A rigor, até que obteve a primeira, porém ao custo de uma fermentação antiamericana que produziu a Revolução Islâmica no Irã e o terrorismo da Al-Qaeda. A massa egípcia sabe dos vínculos estreitos entre o regime de Mubarak e os Estados Unidos. Mas até ontem pelo menos não se viam bandeiras americanas ardendo nas praças do Cairo.
De todo modo, uma transição que comece já, com o ditador ainda em palácio, é uma contradição em termos. Mesmo sem ele, entregue o governo ao vice-presidente nomeado dias atrás, Omar Suleiman, chefe dos temíveis serviços de inteligência do país, a mudança dificilmente será ordeira, pacífica e significativa, como quer Obama. Em 30 anos de ditadura, interesses a ela associados coagularam-se dentro e fora do vasto aparelho estatal egípcio, protegidos por um Parlamento servil - produto de eleições fraudadas -, corrupção endêmica e um permanente estado de emergência que impunha a censura e amordaçava o dissenso. Os muitos beneficiários do sistema não assistirão impassíveis ao desmanche de seus privilégios. Ainda ontem, no Cairo e em Alexandria, espocaram as primeiras, agressivas e evidentemente orquestradas manifestações pró-Mubarak.
Ontem também o principal ator político egípcio, o Exército, tornou a entrar em cena. Da primeira vez, foi para avisar que não reprimiria as "legítimas aspirações" do povo. Agora, para dizer ao povo que a sua mensagem foi ouvida e assimilada, e chegou a hora de voltar ao normal. Os militares são o eixo ao redor do qual o Egito se move. Qualquer que venha a ser a democracia reivindicada nesses dias com ousadia inédita no mundo árabe, as instituições serão tuteladas pelas Armas, como acontece desde a Revolução que destronou o rei Farouk em 1952. Não é difícil prever que o país conhecerá um prolongado período de instabilidade - e que só se acentuará caso a banida Fraternidade Muçulmana resolva atrapalhar, com o seu radicalismo, a incerta construção de uma ordem política aberta.
As esferas econômicas globais
Jean-Pierre Lehmann
Valor Econômico
Enquanto o mundo passa pelo fim da primeira década do século XXI, e entra na segunda, podemos tirar uma conclusão. Vivemos em uma época onde as mudanças são rápidas e profundas. Charles Darwin comentou que "não é o mais forte da espécie que sobrevive, nem o mais inteligente, porém o que melhor se adapta às mudanças". Como vivemos em tempos incertos, é arriscado fazer qualquer tipo de previsão.
No entanto, o que me proponho a fazer aqui é pintar um possível retrato da paisagem da economia mundial no final da próxima década: em 2020. É muito improvável que daqui a dez anos a realidade vá corresponder à minha narrativa. Esta narrativa é, em parte, para imaginar uma possível visão do mundo, mas seu maior propósito é ressaltar que é certo que haverá grandes rupturas. O ano de 2020 será diferente de 2010, assim como 2010 foi diferente de 2000.
No século passado, a economia mundial era dominada pelos EUA e, em menor escala, por alguns países da Europa Ocidental e Japão. Essa narrativa prevê sete grandes esferas globais. Essas esferas não são autárquicas e incluem elevado grau de interdependência - pressupondo que o sistema multilateral global fundamentado em regras seja mantido. Outra narrativa, decorrente do protecionismo ressurgente, seria imaginar um conflito econômico agudo entre as esferas.
Começando pelo Oriente, temos a Esfera Econômica da Grande China, enorme e em expansão, que abrange a Ásia-Pacífico. Dentro dessa esfera há subesferas, que incluem Coreia, Japão, Austrália e ANSA. Nenhuma, contudo, constitui uma esfera própria e todos olham para a China como a locomotiva da economia regional. A Esfera Econômica da Grande China tem ligações extensivas e intensivas com as outras esferas e com países fora de esferas específicas, como na África.
No século passado, a economia mundial era dominada pelos EUA e, em menor escala, por alguns países da Europa Ocidental e Japão. Agora há sete grandes esferas globais, que não são autárquicas e incluem um elevado grau de interdependência
A Esfera Econômica da Índia é substancial devido à sua demografia e crescimento econômico. Entre as muitas dificuldades de expansão, vemos o fato de que a Índia, ao contrário da China, se engaja muito pouco em comércio e investimento com seus vizinhos, principalmente os dois grandes, Paquistão e Bangladesh. É improvável que "uma esfera econômica indiana maior", que engloba o sul da Ásia, venha a surgir em 2020.
Ao norte está a Esfera Econômica da Rússia, englobando as economias da antiga União Soviética. Ela está diminuindo em tamanho e influência, principalmente devido à demografia. A população da Rússia vai diminuir dos atuais 140 milhões a 90 milhões até 2050. A Rússia continua a ser essencialmente uma economia de petróleo e gás. Ao contrário das outras economias Bric, o país não fez profundas reformas voltadas para o mercado.
No sudoeste há o surgimento de uma Esfera Econômica Neo-Otomana. A Turquia é um dos países que passaram por uma das transformações mais notáveis desta última década. Começou a década muito mal, com uma grande crise econômica, mas a economia turca emergiu revitalizada e reformada, sendo a que mais cresce da OCDE. A Turquia também tem passado por uma importante mudança de suas aspirações para se juntar à União Europeia (UE) e desenvolver uma política muito mais independente, renovando os laços com seus vizinhos orientais Síria, Iraque e Irã, e também com o Oriente Médio e África.
A Esfera Econômica da União Europeia ainda está lá, embora seu peso relativo e absoluto na economia mundial vá entrar em declínio. De novo, devido em boa parte à sua demografia, mas também por não "se adaptar às mudanças", citando Darwin novamente. Ela não reagiu bem à mudança e virou-se para dentro. Há muitas incertezas sobre seu futuro, incluindo sobre o euro.
No outro lado do Atlântico, eu vejo duas esferas bastante robustas, ao norte e ao sul. Há a Esfera Econômica da América do Norte, composta por Canadá, EUA e México. Ao superar as atuais dificuldades, há bons motivos para prever que os EUA continuarão a ser uma importante força global. Isto é em parte devido às forças positivas que ainda impulsionam a economia norte-americana - principalmente a da inovação, mas também a da imigração, sendo ambas fortemente interligadas. Além disso, a esfera norte-americana abrange uma economia emergente dinâmica, o México, algo que a UE não tem contanto que mantenham a Turquia afastada.
Na América do Sul há a Esfera Econômica do Brasil. Se as "premiações Darwin" fossem dadas aos países que melhor reagiram às crises, o Brasil seria o vencedor disparado, tendo, possivelmente, a Turquia em segundo lugar. O Brasil é uma grande economia mundial, competitivo em muitas áreas e com fortes corporações multinacionais. Porém, o mais importante, sob as sucessivas administrações dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil obteve sucesso não apenas em suas políticas econômicas, mas também em termos sociais. Houve uma redução significativa da pobreza e, ao contrário da maioria dos países no mundo, redução da desigualdade.
Não há, no momento, o surgimento de uma Esfera Econômica da África. Resta ver qual será a evolução nesse continente durante esta próxima década.
Jean-Pierre Lehmann é professor emérito de International Political Economy no IMD, e diretor fundador do Evian Group no IMD. Ele é co-editor de Peace and Prosperity Through World Trade, Cambridge University Press.
.
Valor Econômico
Enquanto o mundo passa pelo fim da primeira década do século XXI, e entra na segunda, podemos tirar uma conclusão. Vivemos em uma época onde as mudanças são rápidas e profundas. Charles Darwin comentou que "não é o mais forte da espécie que sobrevive, nem o mais inteligente, porém o que melhor se adapta às mudanças". Como vivemos em tempos incertos, é arriscado fazer qualquer tipo de previsão.
No entanto, o que me proponho a fazer aqui é pintar um possível retrato da paisagem da economia mundial no final da próxima década: em 2020. É muito improvável que daqui a dez anos a realidade vá corresponder à minha narrativa. Esta narrativa é, em parte, para imaginar uma possível visão do mundo, mas seu maior propósito é ressaltar que é certo que haverá grandes rupturas. O ano de 2020 será diferente de 2010, assim como 2010 foi diferente de 2000.
No século passado, a economia mundial era dominada pelos EUA e, em menor escala, por alguns países da Europa Ocidental e Japão. Essa narrativa prevê sete grandes esferas globais. Essas esferas não são autárquicas e incluem elevado grau de interdependência - pressupondo que o sistema multilateral global fundamentado em regras seja mantido. Outra narrativa, decorrente do protecionismo ressurgente, seria imaginar um conflito econômico agudo entre as esferas.
Começando pelo Oriente, temos a Esfera Econômica da Grande China, enorme e em expansão, que abrange a Ásia-Pacífico. Dentro dessa esfera há subesferas, que incluem Coreia, Japão, Austrália e ANSA. Nenhuma, contudo, constitui uma esfera própria e todos olham para a China como a locomotiva da economia regional. A Esfera Econômica da Grande China tem ligações extensivas e intensivas com as outras esferas e com países fora de esferas específicas, como na África.
No século passado, a economia mundial era dominada pelos EUA e, em menor escala, por alguns países da Europa Ocidental e Japão. Agora há sete grandes esferas globais, que não são autárquicas e incluem um elevado grau de interdependência
A Esfera Econômica da Índia é substancial devido à sua demografia e crescimento econômico. Entre as muitas dificuldades de expansão, vemos o fato de que a Índia, ao contrário da China, se engaja muito pouco em comércio e investimento com seus vizinhos, principalmente os dois grandes, Paquistão e Bangladesh. É improvável que "uma esfera econômica indiana maior", que engloba o sul da Ásia, venha a surgir em 2020.
Ao norte está a Esfera Econômica da Rússia, englobando as economias da antiga União Soviética. Ela está diminuindo em tamanho e influência, principalmente devido à demografia. A população da Rússia vai diminuir dos atuais 140 milhões a 90 milhões até 2050. A Rússia continua a ser essencialmente uma economia de petróleo e gás. Ao contrário das outras economias Bric, o país não fez profundas reformas voltadas para o mercado.
No sudoeste há o surgimento de uma Esfera Econômica Neo-Otomana. A Turquia é um dos países que passaram por uma das transformações mais notáveis desta última década. Começou a década muito mal, com uma grande crise econômica, mas a economia turca emergiu revitalizada e reformada, sendo a que mais cresce da OCDE. A Turquia também tem passado por uma importante mudança de suas aspirações para se juntar à União Europeia (UE) e desenvolver uma política muito mais independente, renovando os laços com seus vizinhos orientais Síria, Iraque e Irã, e também com o Oriente Médio e África.
A Esfera Econômica da União Europeia ainda está lá, embora seu peso relativo e absoluto na economia mundial vá entrar em declínio. De novo, devido em boa parte à sua demografia, mas também por não "se adaptar às mudanças", citando Darwin novamente. Ela não reagiu bem à mudança e virou-se para dentro. Há muitas incertezas sobre seu futuro, incluindo sobre o euro.
No outro lado do Atlântico, eu vejo duas esferas bastante robustas, ao norte e ao sul. Há a Esfera Econômica da América do Norte, composta por Canadá, EUA e México. Ao superar as atuais dificuldades, há bons motivos para prever que os EUA continuarão a ser uma importante força global. Isto é em parte devido às forças positivas que ainda impulsionam a economia norte-americana - principalmente a da inovação, mas também a da imigração, sendo ambas fortemente interligadas. Além disso, a esfera norte-americana abrange uma economia emergente dinâmica, o México, algo que a UE não tem contanto que mantenham a Turquia afastada.
Na América do Sul há a Esfera Econômica do Brasil. Se as "premiações Darwin" fossem dadas aos países que melhor reagiram às crises, o Brasil seria o vencedor disparado, tendo, possivelmente, a Turquia em segundo lugar. O Brasil é uma grande economia mundial, competitivo em muitas áreas e com fortes corporações multinacionais. Porém, o mais importante, sob as sucessivas administrações dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil obteve sucesso não apenas em suas políticas econômicas, mas também em termos sociais. Houve uma redução significativa da pobreza e, ao contrário da maioria dos países no mundo, redução da desigualdade.
Não há, no momento, o surgimento de uma Esfera Econômica da África. Resta ver qual será a evolução nesse continente durante esta próxima década.
Jean-Pierre Lehmann é professor emérito de International Political Economy no IMD, e diretor fundador do Evian Group no IMD. Ele é co-editor de Peace and Prosperity Through World Trade, Cambridge University Press.
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Tensão no Egito
Slobodan Milosevic, Muammar al-Khadafi, Saddam Hussein, Ben Ali, Hosni Mubarak dentre outros têm elos de semelhança: controle de minorias radicais, anuência da ONU e dos EUA mantendo-os no poder, apesar de enfraquecidos e parcelas de suas sociedades adeptas ao Islamismo.
Os artigos que li, até então, têm passado por estes importantes fatores da equação de forma muito superficial apesar da experiância acumulada com o tempo observando e reportando conflitos nas regiões dos Balcãns e da Liga das Nações Árabes.
Os motivos pelos quais a ONU, Reagan, Margerth Tatcher e, atualmente, Obama, o premio Nobel da Paz sem ter sentado na cadeira e nada feito além de propostas pueris e risíveis (acerca de uma nova proposta de diplomacia no seu famoso "Yes We can change" - relembrando-se que ele retitou a moção no Congresso acerca do fechamento da prisão de Guantanamo) precisam ser melhor explorados pela mídia tanto internacional como nacional.
Outro fator que considero erro é querer encarar as demandas daquelas sociedades por democracia e igualdades de direito como as nossas ocidentais, pois tenho certeza que se este ditador cair as mulheres, a título de exemplo, continuarão com acesso restrito ao mercado de trabalho e, muitas, ainda continuarão com seus véus andando a dois metros atrás dos maridos de cabeça baixa quando cruza com alguém. Se isto mudará com a queda de Mubarak eu duvido muito.
Há mais fenômenos importantes a serem explorados. Vamos aguardar para ver quem mais se aprofunda e esclarece, até lá tenho lido muitos "lugar comum" nas escritas dos repórteres e especialistas.
Tensão no Egito
FOLHA DE S. PAULO
Apesar da violência dos últimos dias no Cairo, saída do ditador Mubarak e uma transição negociada parecem ser o cenário mais provável.
Em 14 de outubro deste ano, o ditador egípcio, Hosni Mubarak, completaria 30 anos no poder. Ao que tudo indica, o déspota não chegará a comemorar a data.
Ontem, 11º dia dos protestos que paralisam o Egito, milhares voltaram à praça Tahrir ("libertação"), no Cairo. A violenta reação de grupos pró-Mubarak nos últimos dias, ao que parece uma massa de policiais à paisana e mercenários, provou-se insuficiente para calar o clamor popular.
O ditador de 82 anos afirmou que está farto do poder e só não sai por temer que o Egito "afunde no caos". As indicações do momento, porém, são de que sua partida já é negociada com os EUA.
O principal candidato a sucedê-lo, nesse cenário, é o general Omar Suleiman, escolhido por Mubarak para ser seu vice na semana passada, depois de o posto ficar vago por três décadas.
O Egito pós-Mubarak projeta uma série de enigmas. O primeiro diz respeito ao Exército, décimo maior do mundo, com 500 mil homens. Instituição respeitada no país, é guardiã de valores nacionalistas e seculares. Pode vir a representar um papel semelhante ao do Exército turco, que atua como freio ao radicalismo islâmico.
O segundo enigma concerne a Irmandade Muçulmana, organização religiosa criada em 1928, durante luta contra o domínio britânico. Na ilegalidade desde os anos 50, compõe-se de maioria moderada que rejeita a violência, mas abriga bolsões extremistas.
A Irmandade tem apoio estimado de 20% a 30% da população. Resta saber se adotará um programa equilibrado para ampliar sua base ou se, menos provável, apostará numa radicalização ao estilo dos palestinos do Hamas.
Por fim, há o posicionamento dos EUA. Por décadas apegados à noção de que é melhor uma ditadura amiga do que o risco de uma teocracia islâmica, em poucos dias evoluíram do apoio inicial a Mubarak a pedidos inequívocos para que deixe o poder. Já parecem dar-se conta de que o futuro governo egípcio será menos submisso a seus interesses.
O Brasil, nesse aspecto, tem adotado a cautela necessária diante da situação volátil, numa região em que o país possui poucos interesses diretos. A nota dissonante veio da embaixada no Cairo, de onde partiram declarações alguns tons acima do oficial.
O futuro governo egípcio terá de se posicionar sobre muitos temas sensíveis, do tratado de paz de 1979 com Israel ao respeito às minorias religiosas. Uma transição ordenada, agora, é o melhor cenário para afastar o espectro de convulsões mais violentas no país.
Os artigos que li, até então, têm passado por estes importantes fatores da equação de forma muito superficial apesar da experiância acumulada com o tempo observando e reportando conflitos nas regiões dos Balcãns e da Liga das Nações Árabes.
Os motivos pelos quais a ONU, Reagan, Margerth Tatcher e, atualmente, Obama, o premio Nobel da Paz sem ter sentado na cadeira e nada feito além de propostas pueris e risíveis (acerca de uma nova proposta de diplomacia no seu famoso "Yes We can change" - relembrando-se que ele retitou a moção no Congresso acerca do fechamento da prisão de Guantanamo) precisam ser melhor explorados pela mídia tanto internacional como nacional.
Outro fator que considero erro é querer encarar as demandas daquelas sociedades por democracia e igualdades de direito como as nossas ocidentais, pois tenho certeza que se este ditador cair as mulheres, a título de exemplo, continuarão com acesso restrito ao mercado de trabalho e, muitas, ainda continuarão com seus véus andando a dois metros atrás dos maridos de cabeça baixa quando cruza com alguém. Se isto mudará com a queda de Mubarak eu duvido muito.
Há mais fenômenos importantes a serem explorados. Vamos aguardar para ver quem mais se aprofunda e esclarece, até lá tenho lido muitos "lugar comum" nas escritas dos repórteres e especialistas.
Tensão no Egito
FOLHA DE S. PAULO
Apesar da violência dos últimos dias no Cairo, saída do ditador Mubarak e uma transição negociada parecem ser o cenário mais provável.
Em 14 de outubro deste ano, o ditador egípcio, Hosni Mubarak, completaria 30 anos no poder. Ao que tudo indica, o déspota não chegará a comemorar a data.
Ontem, 11º dia dos protestos que paralisam o Egito, milhares voltaram à praça Tahrir ("libertação"), no Cairo. A violenta reação de grupos pró-Mubarak nos últimos dias, ao que parece uma massa de policiais à paisana e mercenários, provou-se insuficiente para calar o clamor popular.
O ditador de 82 anos afirmou que está farto do poder e só não sai por temer que o Egito "afunde no caos". As indicações do momento, porém, são de que sua partida já é negociada com os EUA.
O principal candidato a sucedê-lo, nesse cenário, é o general Omar Suleiman, escolhido por Mubarak para ser seu vice na semana passada, depois de o posto ficar vago por três décadas.
O Egito pós-Mubarak projeta uma série de enigmas. O primeiro diz respeito ao Exército, décimo maior do mundo, com 500 mil homens. Instituição respeitada no país, é guardiã de valores nacionalistas e seculares. Pode vir a representar um papel semelhante ao do Exército turco, que atua como freio ao radicalismo islâmico.
O segundo enigma concerne a Irmandade Muçulmana, organização religiosa criada em 1928, durante luta contra o domínio britânico. Na ilegalidade desde os anos 50, compõe-se de maioria moderada que rejeita a violência, mas abriga bolsões extremistas.
A Irmandade tem apoio estimado de 20% a 30% da população. Resta saber se adotará um programa equilibrado para ampliar sua base ou se, menos provável, apostará numa radicalização ao estilo dos palestinos do Hamas.
Por fim, há o posicionamento dos EUA. Por décadas apegados à noção de que é melhor uma ditadura amiga do que o risco de uma teocracia islâmica, em poucos dias evoluíram do apoio inicial a Mubarak a pedidos inequívocos para que deixe o poder. Já parecem dar-se conta de que o futuro governo egípcio será menos submisso a seus interesses.
O Brasil, nesse aspecto, tem adotado a cautela necessária diante da situação volátil, numa região em que o país possui poucos interesses diretos. A nota dissonante veio da embaixada no Cairo, de onde partiram declarações alguns tons acima do oficial.
O futuro governo egípcio terá de se posicionar sobre muitos temas sensíveis, do tratado de paz de 1979 com Israel ao respeito às minorias religiosas. Uma transição ordenada, agora, é o melhor cenário para afastar o espectro de convulsões mais violentas no país.
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