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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Raras e cobiçadas

O que faltou para nós nos últimos vinte anos neste quesito foi uma séria, e não demagógica visão de inserção econômica no mundo. Por intermédio da pá-de-cal de Collor e da redução de investimentos em pesquisa e produção mineral e nuclear perdemos preciosos espaços no mundo nos condenando a meros produtores e exportadores de commodities.

O texto fala de como a China dominará importantes segmentos de produção nos próximos quinze anos.


Raras e cobiçadas
Celso Ming

O Estado de S.Paulo

A notícia correu o mundo: em setembro, a China, usando como pretexto um incidente sobre soberania territorial, suspendeu as exportações de terras raras para o Japão. O governo de Pequim negou o embargo.

Independentemente dos vaivéns diplomáticos, o fato é que a China tem reduzido a exportação desse material estratégico e isso levanta no resto do mundo preocupações de todo o tipo.

Terras raras são um conjunto de 17 minerais não ferrosos cujos nomes esquisitos estão nos manuais de química: gadolínio, térbio, disprósio, lutécio... Até há pouco tempo eram apenas usados nos laboratórios de pesquisa.

Hoje, são essenciais na fabricação de produtos de alta tecnologia, como mísseis, ou em artigos de uso cada vez mais intensivo, como lâmpadas fluorescentes, telefones celulares, notebooks, painéis de energia solar e turbinas eólicas.

Apesar de o nome sugerir escassez, há jazidas em vários países, mas o seu processamento é caro e altamente poluidor. Isso explica o predomínio da China na mineração e no refino nas últimas décadas. Em 2009, por exemplo, respondeu por nada menos que 97% da produção mundial.

Depois de ter reduzido em 40% as exportações de 2010 em comparação com as de 2009, dia 28 o governo da China avisou que vai restringir ainda mais os fornecimentos a partir do primeiro semestre deste ano. A informação chega num momento em que a demanda mundial já ultrapassa a oferta. Um relatório do Congresso americano avalia a atual produção mundial em 124 mil toneladas por ano, enquanto o consumo já é de 134 mil toneladas, e deverá alcançar as 200 mil toneladas em 2014. Como se vê, a reciclagem vai ficar cada vez mais importante.

O maior prejudicado pelas decisões da China, o Japão (um dos principais importadores), começa a se mexer. Tóquio planeja investir 100 bilhões de ienes (US$ 1,2 bilhão) para garantir o suprimento. Outros países estão nessa rota. No dia 15 de dezembro, o Departamento de Energia dos Estados Unidos divulgou documento que adverte sobre a necessidade de reduzir nos próximos 15 anos a dependência de metais raros de origem chinesa.

E como está o Brasil? Há terras raras a serem exploradas por aqui?

Estimativas dão conta de que as reservas brasileiras somam algo em torno de 48 mil toneladas, quantia suficiente para abastecer uma futura demanda interna e, se houver excedente, exportá-lo. Mas hoje não há nenhuma jazida em exploração.

Fernando Antônio Freitas Lins, diretor do Departamento de Tecnologia e Transformação Mineral do Ministério de Minas e Energia, conta que as reservas que até recentemente serviam à demanda do Brasil estão exauridas há anos.

De novo houve apenas a constituição, em junho passado, de um grupo interministerial integrado por especialistas do Ministério de Minas e Energia e do Ministério da Ciência e Tecnologia. Está encarregado de fazer um mapeamento dos minerais estratégicos no Brasil. O estudo inclui desde o levantamento geológico em áreas potenciais até o apoio à pesquisa para definição de jazidas e o incentivo ao desenvolvimento de produtos de alta tecnologia. Os trabalhos estão em fase final, mas o diretor Freitas Lins avisa: "Os resultados só aparecerão a médio e a longo prazos."

Grande avanço

Não é o saldo comercial positivo, em 2010, de US$ 20,3 bilhões, bem acima do projetado, que merece mais comemoração. Mais importante foi o avanço das exportações, de nada menos que 31,4%, num ano em que as encomendas dos países ricos (os maiores compradores) estiveram travadas pelo baixo crescimento econômico.

Primeiro lugar

É, sim, um desempenho obtido com forte apoio das vendas de commodities. No entanto, deve apontar o Brasil como o país com maior crescimento das exportações em 2010.
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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O império do consumo

Envolverde

Por Eduardo Galeano
Carta Capital

A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?

A explosão do consumo no mundo atual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar.

A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.

O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.

“Gente infeliz os que vivem a comparar-se”, lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. “Quando não tens nada, pensas que não vales nada”, diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: “Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações”.

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade severa” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.

O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel par trabalhar e para ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.

Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que veem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um patrimônio coletivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos.

Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald’s, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald’s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald’s dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald’s de Moscou, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.

Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald’s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas em 1998, outros empregados da McDonald’s, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo. Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório.

Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra. Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece.

Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário.

A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam veem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama. Apinhados em tugúrios [casebres], a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram.

Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam “porque as pessoas têm o gosto de juntar-se”. Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas?

O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de ônibus e de comboios, que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.

O shopping center, ou shopping mall, vitrine de todas as vitrines, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.

A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete. Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.

O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?

A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.

A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

Crise dos Créditos por Rodrigo Constantino

Uma excepcional visão de futuro apresentada em vinte minutos.
Excelente, vale a pena ver e divulgar.

.(vídeo)

Palestra de Rodrigo Constantino

Os desafios e as oportunidades do Brasil em um mundo sem líderes

Ian Bremmer e Christopher Garman
Época

As próximas gerações de autoridades responsáveis pelas políticas do Brasil deverão ser mais pragmáticas para ampliar a influência do país em um período de enorme incerteza

As promissoras perspectivas econômicas do Brasil deixam poucas dúvidas de que a influência internacional do país está a ponto de ter, nos próximos anos, um grande impulso. À medida que mais empresas brasileiras se tornarem multinacionais, o poder regional do país vai aumentar. A expansão da economia e a crescente importância do Brasil como produtor de energia em petróleo, gás e biocombustíveis darão ao país, além disso, um papel de destaque no comércio internacional, nas negociações sobre as mudanças climáticas e em fóruns multilaterais. A extensão e a forma dessa proeminência internacional do Brasil, no entanto, vão depender basicamente de dois fatores. O primeiro está ligado à evolução da ordem global – ou à ausência dela. O segundo, às escolhas que as autoridades responsáveis pelas políticas do Brasil farão ao tentar usar esse novo poder geopolítico. Se Brasília escolher bem e evitar as ciladas de uma certa atitude presunçosa que marcou nos últimos anos algumas das iniciativas na política externa, a influência brasileira continuará a crescer.
A emergência do Brasil no cenário internacional ocorre em um momento de declínio da influência dos Estados Unidos e do fim de uma ordem internacional unipolar dominada pelos americanos, mas sem que um modelo alternativo esteja pronto para tomar o lugar. É impossível dizer exatamente quando esse processo atingiu seu auge, mas o choque causado pela crise financeira global em setembro de 2008 e o surgimento do G20 como um fórum para coordenar a reação internacional foram fundamentais para ele se desenvolver. No início, o medo de uma crise financeira global sistêmica forneceu as condições para alguma coordenação internacional em matéria de política econômica. Mas, à medida que a crise perdeu força e diferentes nações, em diferentes velocidades, se recuperaram do choque, o senso de urgência e de unidade se dissipou.

O G20 dificilmente vai funcionar algum dia com eficácia. Há muitos países membros, as diferenças internas são muito grandes e eles, além de estarem voltados para desafios domésticos, tendem a ver mais benefícios em agir por conta própria do que em procurar consensos que requerem algum tipo de sacrifício. Esse problema se tornou mais claro graças à combinação de uma onda de protestos contra os governos nos países industrializados com a tendência de os países emergentes se concentrarem em seus próprios problemas. Em 2010, os encontros de cúpula globais se tornaram inúteis porque muitos países-chave se tornaram mais fracos ou desviaram suas atenções para outros problemas.

As dificuldades do G20 em enfrentar problemas que exigem coordenação econômica – como os atuais desequilíbrios comerciais entre Estados Unidos, China e Europa – são reveladoras de um problema maior, que é importante para o Brasil. Não se deve esperar o surgimento de uma nova ordem global em que os países industrializados e emergentes dividam em conjunto os pesos e os riscos das soluções dos problemas internacionais.

Como o Brasil pode aumentar sua influência em um mundo sem líderes, no qual nenhum país ou bloco de países tem poder político suficiente para conduzir a agenda global? O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter embarcado numa estratégia de política externa que foi conduzida pela premissa de que a influência internacional dos EUA está em declínio. Ele trabalhou duro para desenvolver as relações Sul-Sul e para assegurar um papel mais relevante nas instituições multilaterais existentes, enquanto preservava o papel tradicional do Brasil como mediador neutro nas disputas internacionais.

Essa estratégia pode estar certa ao reconhecer que Washington não lidera mais, mas não ajuda o Brasil a avançar em um mundo sem um líder ou sem instituições multilaterais com credibilidade. O objetivo de um assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas não é apenas improvável em um contexto em que os protagonistas da arena internacional exprimem cada vez mais diferenças. Pode também se tornar inútil para as pretensões do Brasil de modelar a nova ordem global se o Conselho se tornar irrelevante como fórum internacional. É importante ter um “Plano B” eficaz para o caso de fracasso nas negociações multilaterais e para evitar o que ocorreu quando o Brasil apostou todas as suas “fichas” comerciais nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A presidente Dilma Rousseff pode aproveitar o sucesso de Lula e evitar os seus erros de cálculo, ampliando a influência do Brasil numa estratégia de caso a caso, sem esquecer que a nova arquitetura internacional não será bem coordenada e poderá provocar novos e maiores conflitos.

Considere esses dois exemplos. A tentativa do Brasil (junto com a Turquia) de mediar um acordo entre o Irã e o Conselho de Segurança das Nações Unidas para evitar sanções fracassou. O governo Lula continua a proclamar que seus esforços demonstraram a ascensão geopolítica do Brasil, mas a inabilidade de Brasília em ganhar o apoio de outros membros do Conselho para o plano enfraqueceu suas chances de sucesso. Por outro lado, a discussão sobre controle de capitais durante o recente encontro do G20 em Seul realçou a habilidade do Brasil em mudar os termos do debate em uma questão vital. Como os Estados Unidos, a China e os países industrializados não se entenderam sobre uma política coordenada para enfrentar os desequilíbrios comerciais, a advertência do ministro da Fazenda, Guido Mantega, sobre o perigo de uma “guerra cambial” mudou o jogo no último encontro do G20 e armou o cenário para o governo brasileiro justificar o uso de controles de capital para atenuar os impactos negativos de uma entrada maciça de capitais no país.

Os críticos são rápidos em sugerir que a política externa de Lula rendeu poucos resultados concretos. Para ser justo, o Brasil é uma potência emergente que está tentando elaborar uma nova estratégia política em um mundo em rápida mudança. Passos em falso são inevitáveis. Ao longo do tempo, as próximas gerações de autoridades responsáveis pelas políticas do Brasil deverão ser mais pragmáticas para ampliar a influência do país em um período de enorme incerteza.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Cancún - ilusões e realidades

Cancún - ilusões e realidades
José Goldemberg
O Estado de S. Paulo

A reunião em Copenhague (Dinamarca) dos países-membros da Convenção do Clima (COP-15), em 2009, foi uma decepção tal que qualquer resultado mais positivo da reunião em Cancún, no México, de 29 de novembro a 10 de dezembro deste ano (COP-16), seria visto como um sucesso. De fato, bastou um pouco de organização por parte dos mexicanos e a simpatia da ministra de Relações Exteriores do México (em contraste com o primeiro-ministro da Dinamarca) para obter aplausos e até uma visão mais otimista das negociações sobre o clima.

Quão reais, contudo, são os avanços obtidos em Cancún?

Isabella Teixeira, nossa ministra do Meio Ambiente, deu uma generosa nota de 7,5 para os resultados de Cancún (numa escala de 1 a 10), mas uma análise fria desses resultados não daria uma nota maior do que 5, que é o mínimo necessário para evitar uma reprovação.

O melhor resultado da conferência foi evitar que o Protocolo de Kyoto fosse enterrado prematuramente, porque o Japão, a Inglaterra e outros países se cansaram de fazer esforços para cumprir as metas fixadas pelo protocolo, enquanto os Estados Unidos e a China (os maiores emissores mundiais de gases de efeito estufa, que respondem por mais de 50% do total) não fizeram o mesmo. Abandonar o Protocolo de Kyoto - que se encerra em 2012 - sem substituí-lo por outro seria um desastre, porque os mecanismos do protocolo, como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), deixariam de ser atrativos e o valor dos certificados de reduções de emissões, que são objeto de transações comerciais, cairia a zero. Atualmente, esse mecanismo movimenta bilhões de dólares, que beneficiam muitos países em desenvolvimento, entre eles o Brasil. A solução encontrada em Cancún foi adiar o problema para a COP-17, a ser realizada no ano que vem em Durban, na África do Sul. Enquanto isso, ele continua válido.

Outro resultado da conferência foi o de reconhecer a necessidade de cortar as emissões de gases de efeito estufa de modo a evitar que a temperatura da Terra aumente mais de 1,5 grau centígrado (Celsius). O valor usado como referência até agora era de 2 graus centígrados. A decisão, contudo, necessita ainda de estudos para serem avaliados em 2015.

Além disso, decisões desse tipo, qualquer que seja o número adotado - 1,5 grau ou 2 graus -, são tipicamente decisões do "tipo Nações Unidas", isto é, exortações, porque elas não especificam quem deve fazer o quê. Todos concordam porque não redundam em compromissos reais. O único exemplo que existe de compromissos reais são os do tipo fixado pelo Protocolo de Kyoto, que poucos querem cumprir, exceto a União Europeia, e que a China e os Estados Unidos não aceitam.

Na realidade, se o compromisso de limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius (ou mesmo 2 graus) fosse levado a sério, os países em desenvolvimento (o Brasil incluído) teriam de cortar as suas emissões. É simplesmente impossível, do ponto de vista científico, limitar o aquecimento a 2 graus centígrados apenas com cortes nas emissões dos países industrializados.

Por essa razão, é inútil argumentar sobre as "responsabilidades históricas" destes últimos países pelas emissões do passado: se todos os países emissores (principalmente China, Índia, Brasil, e ainda alguns outros) não reduzirem as suas emissões, juntamente com os países industrializados, o aquecimento será maior do que 2 graus Celsius.

É inútil argumentar também que as emissões per capita da China, da Índia, do Brasil e outros são menores do que as emissões per capita dos europeus ou americanos. O que determina o aquecimento global é o total das emissões, e não a emissão per capita. Com uma população de mais de 1,2 bilhão de pessoas, a China emite mais do que os Estados Unidos, que têm menos de 300 milhões de habitantes. Pode parecer injusto que os americanos emitam quatro vezes per capita o que os chineses emitem, mas essas diferenças existem também no que se refere à renda per capita.

Progresso real seria atingir um acordo global, de todos os países, sobre os cortes que cada um deles deveria fazer. Uma negociação séria entre os grandes emissores (entre os quais o Brasil) poderia fixar essas reduções, que certamente seriam diferentes para os diversos países. Este é o significado do que consta da Convenção do Clima - a qual foi aceita e ratificada por todos -, o de que "as responsabilidades pelo aquecimento global são comuns, mas diferenciadas". Esse acordo daria base jurídica para que cada país adotasse legislação própria mandatória para cumpri-lo - como, aliás, é feito com outros acordos internacionais.

Isso não ocorreu em Cancún, e provavelmente não ocorrerá na COP-17, em Durban, em 2011, mas poderia ocorrer em 2012 no Rio de Janeiro, local natural para a COP-18, quando será comemorado o 20.º aniversario da Convenção do Clima.

Nesse pano de fundo um pouco pessimista, algum progresso foi atingido em Cancún para pôr em operação o "Fundo Verde", que será administrado pelo Banco Mundial, o que foi recebido com algum ceticismo. Muitos países preferiam uma nova agência independente. Os países industrializados, em Copenhague, comprometeram-se a desembolsar US$ 30 bilhões até 2012, mas até agora as contribuições foram pequenas e incluem programas já em andamento, de modo que não se sabe realmente quanto é "dinheiro novo". Além disso, a regulamentação do mecanismo de redução de emissões por desmatamento e degradação florestal (Redd), que visa a ajudar países como o Brasil, a Indonésia, a Nigéria, para que reduzam suas taxas de desmatamento, e outros, teve algum progresso e deverá ser objeto de decisões finais no próximo ano, em Durban.