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segunda-feira, 7 de março de 2011

Nostalgia do trabalho


Ao longo dos séculos, o trabalho passou por várias mutações. A Grécia Antiga não o tinha em alta conta: seus luminares o consideravam um inimigo da virtude, a brutalizar a mente dos homens e inutilizá-los para as atividades mais nobres: a política e a filosofia. O Renascimento recuperou o valor do trabalho e elegeu seu herói: o mestre artesão, capaz de dele extrair sustento e arte.

No entanto, foi com a Revolução Industrial que o trabalho atingiu o seu apogeu, sendo celebrado como motor da modernização e da transformação do mundo. Hoje, a nossa sociedade tem outros deuses: cultua mais o consumo do que a produção, valoriza mais a imagem do que o fato, celebra mais o cargo do que o batente.
Significativamente, surgem aqui e acolá nostálgicos da velha ordem. Notem, por exemplo, a proliferação de profissionais bem-sucedidos com “hobbies sérios” ou “atividades paralelas”. Parece estar crescendo o número de médicos pintores, financistas carpinteiros e engenheiros moveleiros. Como se não bastassem as longas e estressantes jornadas de trabalho, muitos profissionais mostram-se ávidos em localizar espaço na agenda para desenvolver e exercitar suas competências manuais. Sintomático!
O norte-americano Matthew B. Crawford seguiu os passos do sucesso ditados pela nova sociedade da informação: obteve um Ph.D. na Universidade de Chicago e conseguiu emprego em um think tank em Washington, D.C. Entretanto, não demorou para se desiludir com a manipulação de ideias e se frustrar com o restrito uso de seu intelecto. Então, retornou algumas décadas na tecnologia e dois séculos na organização do trabalho: foi montar uma oficina de reparos de motocicletas antigas. No livro Shop Class as Soulcraft An Inquiry Into the Value of Work (The Penguin Press, 2009), Crawford narra sua saga e defende seus argumentos.

O autor parte da constatação de que uma mudança substantiva está em curso: o que antes fazíamos, agora compramos pronto; o que antes consertávamos, agora substituímos. Estamos, com isso, perdendo nossas habilidades manuais e nos tornando mais passivos e dependentes. Pior: estamos também perdendo alguns fatores intrínsecos de satisfação do trabalho.

Para Crawford, o retorno ao artesanato, como mecânico de motocicletas, devolveu-lhe o verdadeiro sentido do trabalho. Primeiro, porque o resultado é claramente visível e reconhecido pelo cliente. Segundo, porque o trabalho envolve operações cognitivas complexas que dependem de conhecimento prático e experiência acumulada. Terceiro, porque sua posição lhe confere um lugar na comunidade.

O autor argumenta que quem trabalha mais próximo dos fenômenos naturais consegue estabelecer correlações e princípios mais coerentes, enquanto quem lida permanentemente com abstrações e ignora a matéria-prima da realidade tende a gerar dogmas com base em poucas observações. Para o autor, o conserto de motocicletas envolve raciocínio mais amplo e complexo do que o trabalho no think tank, o contrário do que apontaria o senso comum.
Mas qual a raiz da desvalorização do trabalho artesanal? Segundo os manuais de gestão, o ponto de inflexão deu-se pela consolidação da linha de produção fordista e pela disseminação dos princípios de administração científica, que ocorreram no início do século XX. Esses fenômenos gêmeos aumentaram significativamente a produtividade, reduziram custos de manufatura e criaram as bases para a sociedade de produção e consumo em massa. Como efeito colateral, eles marginalizaram o trabalho artesanal. A separação entre o planejamento do trabalho (realizado por especialistas e gerentes) e a execução do trabalho (realizado mecanicamente por operários) destruiu algumas características que proviam satisfação intrínseca ao trabalho.

Esse movimento, que começou na indústria, avança agora firme no setor de serviços. Os bancos, as seguradoras e os hospitais têm processos que estão sendo cientificamente racionalizados, como se fossem linhas de produção. A separação que ocorreu com o trabalho industrial está agora ocorrendo com o trabalho no setor de serviços: enquanto os gestores se atolam em reuniões, PowerPoints e ­e-mails, o trabalho nos porões das centrais de atendimento e nos centros de serviços sofre forte padronização e rotinização.

Crawford é claro em sua valorização dos laços morais que ligam os trabalhadores ao seu trabalho e os empreendedores aos seus consumidores, laços que não deveriam ser tão prontamente sacrificados no altar da eficiência e do crescimento. O esfacelamento desses laços desencoraja a prudência e pode provocar efeitos nefastos. Não faltam recalls de produtos ou crises financeiras para ilustrar o argumento.

Thomaz Wood Jr. escreve sobre gestão e o mundo da administração. thomaz.wood@fgv.br

quarta-feira, 2 de março de 2011

Os Desajustados



A economia avança, os horizontes se abrem e cresce o número de fugitivos nas grandes empresas, a sonhar com negócios próprios

O título desta coluna foi emprestado de um conhecido filme de John Huston. Lançada em 1961, a obra é uma notável coleção de ícones. A história foi escrita por ninguém menos que Arthur Miller. A estrela era sua esposa, Marilyn Monroe. O elenco contava com Clark Gable e Montgomery Clift. A não menos icônica agência Magnum registrou as filmagens, com fotógrafos como Henri Cartier-Bresson, Cornell Capa e outros luminares.

Como todo grande filme, Os Desajustados não foi um sucesso comercial. Entretanto, com o tempo ganhou o respeito de críticos e cinéfilos, que reconheceram a magnífica fábula e o trabalho singular de seus atores. Huston coloriu a história de Miller em imprescindível preto e branco, gastou uma fortuna e conduziu uma filmagem turbulenta. O produto final tem altos e baixos. Pouco importa. Suas qualidades justificam o culto.

A história se passa em Reno, uma pequena cidade de Nevada. Gay Langland (Gable) é um caubói veterano que vive da captura de mustangs. Esses cavalos, que tiveram um passado marcante na história norte-americana, agora são caçados e vendidos, por quilo, para matadouros, que utilizam sua carne na fabricação de ração para cachorros. Deprimente!

Os passos de Gay se cruzam com os de Roslyn Tabor (Monroe), uma divorciada confusa e instável. Ele é um homem livre. No entanto, como os mustangues, é um espécime ameaçado. Agarra-se como pode aos ideais daqueles de sua estirpe. Seu inimigo é o inexorável avanço da dita civilização: a urbanização, a industrialização e as modernas relações de trabalho.

Para Gay, o inferno é o trabalho assalariado. Seu amigo Pierce Howland (Montgomery Clift), outro caubói errante, abandonou a propriedade da família depois que seu padrasto o ofendeu com a oferta de um emprego remunerado. Em diversas cenas, Guido (Eli Wallach), outro parceiro de Langland, o relembra da ameaça perene: tornar-se um mísero empregado.

A cena final de Os Desajustados mostra Gay e Roslyn na cabine de um caminhão, viajando à noite pelo deserto. O caubói havia libertado os mustangues que capturara. Marcara, com o ato, a renúncia a um modo de vida que não reconhecia mais como seu, que havia sido profanado pelas mudanças do mundo ao redor. Roslyn pergunta a Gay como ele consegue se orientar no escuro. O caubói responde indicando uma estrela e revelando que basta guiar-se por seu brilho, que os levará para casa.

Para Gay e seus amigos, trabalhar para um senhor, vender o corpo e a alma para o dono do capital é uma ignomínia, um passo certo para a degradação social. Os caubóis de Huston- e Miller são criaturas míticas de outra época, de outro mundo. Desde suas desventuras pelo deserto de Nevada, muita coisa mudou. A industrialização avançou e estancou, a economia dos serviços ascendeu e se consolidou. As empresas cresceram e grandes corporações ganharam o mundo. O trabalho assalariado se expandiu. O sonho de liberdade dos caubóis morreu, outros sonhos surgiram para tomar seu lugar.

Nas últimas décadas, as aspirações de jovens profissionais envolveram carreiras em grandes empresas a prover conforto, estabilidade e possibilidades, em suma, um futuro radioso. Entretanto, esse ciclo parece ter também se esgotado. Hoje, uma carreira em grande empresa garante apenas poucas horas de sono, muitas preocupações, incertezas, úlceras e problemas cardíacos.

Sintomaticamente, muitos jovens profissionais estão buscando outros rumos, abraçando a montanha-russa do empreendedorismo. Retornam, em espírito, ao campo aberto dos caubóis. E não seguem sozinhos. Um número significativo de profissionais experientes persegue a mesma aventura.

A motivação dos dois grupos é diferente: enquanto os mais jovens procuram a vertigem e o sucesso, os mais maduros frequentemente buscam apenas escapar do tédio e da frustração. Os riscos são consideráveis: as taxas de falência de novos negócios, próximas de 50%, atestam a distância entre o sonho e o feijão.

As revistas de negócios adoram histórias de sucesso, mas muitos empreendedores trocam o jugo de seus patrões, nas empresas, pelo jugo de seus clientes, em seus negócios próprios. Em lugar de se tornarem donos de seu tempo, veem-no esvair ainda mais rapidamente do que antes, a tentarem fazer frente a dezenas de tarefas, todas aparentemente urgentes.

Os novos, e nem tão novos, candidatos a John Wayne devem se preparar para grandes desafios e emoções. O momento os favorece e a vida nas pradarias do empreendedorismo tem seu charme: os horizontes são amplos e muitos caminhos continuam inexplorados. Porém, as chances de encontrar estrelas guias e, principalmente, Marilyn Monroe são escassas.